sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Sensações

Sensacões, como são difíceis de serem expressas... O coração bate tresloucadamente, as mãos suam, nervos a flor da pele e aquela incerteza latente: ligar ou não ligar? E se ele não lembrar de mim? E se simplesmente me ignorar??? O que fazer... Coração retumbando dentro do peito, ansiedade pura, pulsação como se tivesse acabado de correr uma maratona... E então ela decide: vou ligar e seja o que Deus quiser! Levanta de sua mesa de trabalho, atrolhada de processos complicadíssimos que destrincha com a maior facilidade e o medo se apodera dela... Não vou desistir, hoje eu vou ligar... Seus dedos tremulam ao digitar os números, código da operadora, 2 números, código da área, + 2, número do telefone, + 08, são doze intermináveis números que ela digita durante os quais ela simplesmente não raciocina para não desistir. Números discados, telefone chamando, toca uma, duas, três, ela já até está querendo desligar pensando “viu, ele não atendeu, a culpa não foi minha”! Quando ouve um alô do outro lado, daquela voz tão conhecida, jamais esquecida, apesar do tempo passado, ela tira uma forca que não sabia que possuía e comeca a falar... Primeiro coisas triviais, “ como tu estás, e o trabalho, saúde?” E todo aquele papo educado que aprendemos a ter, como dizem os franceses “come il faut”... Perguntas que vão, respostas que vêm, questões respondidas e o tempo passando e ela pensando: “eu não vou conseguir...” Mas ela é uma mulher determinada, que aprendeu a lidar melhor com suas emoções e que acha extremamente injusto esconder seus sentimentos dos outros e de si própria... Então menciona: “isto não têm nada a ver com você, eu é que preciso te dizer isso...” respira fundo e solta o verbo, com uma coragem que vem das entranhas: “tu não sabes como eu te amei naquela época...”, ela nunca havia dito isso com todas as palavras: EU TE AMO! Apesar das atitudes indicaram, os olhos falarem, mas a boca era reprimida... Não conseguia dizer durante todos os momentos apaixonados e maravilhosos vividos, essas palavras mágicas... ela ainda era uma menina-mulher, confusa, apaixonada... e achava que não dizendo isso, deixava de entregar o que já havia sido entregue há muito tempo: sua alma, seu coração e seu corpo... Quanta bobagem... só o tempo e a experiência a deixaram ver isso... Vitória ! Ela disse! Conseguiu! Está em paz com sua consciência. Disse a quem nunca havia dito que o amava, apesar de um atraso de dez anos, mas isso é detalhe! Ela deixou de dizer, ele deixou de ouvir, será que mudaria algo??? Agora isso não interessa... Ele pareceu um pouco perturbado e diz que ficou emocionado... Retribui com o velho jargão “eu também gostei muito de ti”... Ela não acredita que cumpriu a missão que tinha estabelecido para si mesma, então se despede: “um beijo para ti” e desliga. Volta para sua sala, senta em sua mesa, em frente ao seu computador, como se nada tivesse acontecido! Tudo parece igual, seus colegas sérios trabalhando, os processos se avolumando e ela tenta se concentrar, seus olhos enchem de lágrimas, ela havia vencido mais uma batalha! Ela era uma mulher de verdade que não esconde o que sentiu, sente e sentirá! Cresceu e amadureceu! Se parabeniza mentalmente e pensa: “a liberdade realmente é azul!”

Martha Medeiros


Não importa qual a sua dor, qual o seu sofrimento, a única pessoa a quem não podemos mentir somos nós!!!! Então, não esconda seus sentimentos, mesmo diante da indiferença alheia, das máscaras criadas, do tempo decorrido...
Ah!!! Mas ser sincero tem um preço, certamente você ficará na dúvida... o que será que ele/a pensou do que falei? O que signifiquei (ou significo) para ele/a? Será que ele/a merecia minha verdade?
Não interessa!!! Diga a verdade SEMPRE, por você e não por ele/a, pois não há nada a perder, além do que já se perdeu...
S. B.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Tu Tens um Medo

Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete.
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia.
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.


Cecília Meireles

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Talvez, quem sabe, eu venha a me arrepender
de todos os meus atos do passado.
Contudo, eu não temo, pois um arrependimento
indica uma atitude de ousadia e coragem.
Não me importa se cometi erros...
Minha vida segue... vou prosseguir
e, com certeza, errar e acertar muitas e muitas vezes...
Isso é amadurecer... crescer... viver...
Não preciso ter uma atitude específica
para convencer alguém de quem sou, ou do que quero.
Já que não tenho dúvidas!!!!
Mas, se fecham o coração para não sentir,
eu não sou a responsável por isso...
A minha verdade está disponível,
basta acreditar!!!


S. B.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

ASSOMBROS


Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e a omoplata rola
mal quebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

Affonso Romano de Sant'Anna (Lado Esquerdo do Meu Peito)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

AMOR E SEU TEMPO

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.
É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe
valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.
Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida.
Amor começa tarde.


Carlos Drummond de Andrade


Adoro Drummond...
e ele sempre tem o que me dizer!
É incrível como vc só conhece
o Amor na maturidade...
Não se trata de apologia,
pelo fato de eu ser "balzaquiana",
mas de auto-conhecimento!
Vc só aprende a amar e a ser amado,
qdo se reconhece como ser digno e
apto a ser amado!
E, infelizmente penso eu,
isso só ocorre na maturidade...,
que não sinônimo de idade!
Conheço jovens maduros e
velhos imaturos...
Amar independe da idade!!!

sábado, 5 de janeiro de 2008

Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito.


Machado de Assis

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

O OLHAR DO AUTOR E DO RECEPTOR


"O olho precisa encontrar o olho do outro. Olho no Olho. O olhar estabelecendo a confiabilidade do diálogo.
O olhar do outro é o alimento solidário para eu me pôr de frente, encontrando a respiração do outro.
Necessito do olhar, do olho do outro no meu olho.
Pouso suave, convidativo, deposito meu olhar no olhar do outro, sem pressa de tirá-lo.
O olhar ajuda a dizer e, principalmente, ajuda a ouvir.
Os olhos ajudam a buscar o significado nos guardados do coração; apóiam a escolha, recolhem a preferência, extraem o sufocado, dissolvem o velado, desentopem o ajustado, desarrumam para enxergar e ordenar o belo e o distraído.
Olhar no olho do outro é sublimar o narrado, é destampar o vivido, é tornar possível, é possibilitar o percurso e os atalhos, é estender o plausível a extremos tensionadores de descobertas, é romper o conformado, é desejar o não-experimentado, é chorar de ver".


Retirado do livro: Pensar a leitura
Edições Loyola


Não sei pq as pessoas temem o "olho no olho"...
Eu prefiro sempre a verdade, não precisa ser
a verdade "verdadeira", mas a verdade do momento,
aquela que falamos no momento em que estamos sentindo,
mesmo que venhamos a nos arrependermos depois...

A verdade "mentirosa", aquela que fica incubada no peito
e nos faz sofrer não me interessa...
Prefiro sofrer pelo que acredito,
do que me amargurar pelo que suponho.

Gostaria de saber a verdade!!!
Onde está aquela velha amizade,
o companheirismo, o "seja quem vc é"??
Onde está a conversa, o contato, o alento,
o "olho no olho", o sustento???

Onde está vc de verdade???

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Medo

O dia mais belo: hoje
A coisa mais fácil: errar
O maior obstáculo: o medo
O maior erro: o abandono
A raiz de todos os males: o egoísmo
A distração mais bela: o trabalho
A pior derrota: o desânimo
Os melhores professores: as crianças
A primeira necessidade: comunicar-se
O que traz felicidade: ser útil aos demais
O pior defeito: o mau humor
A pessoa mais perigosa: a mentirosa
O pior sentimento: o rancor
O presente mais belo: o perdão
O mais imprescindível: o lar
A rota mais rápida: o caminho certo
A sensação mais agradável: a paz interior
A maior proteção efetiva: o sorriso
O maior remédio: o otimismo
A maior satisfação: o dever cumprido
A força mais potente do mundo: a fé
As pessoas mais necessárias: os pais
A mais bela de todas as coisas: O AMOR!!!

Madre Tereza de Calcutá


Estou em 2008...
Ano que meu pai faz 60 anos,
meu marido 40 e eu (deixa pra lá!!!).
Até pouco tempo atrás a idade não me incomodava...
Agora, a idade fica latente na minha mente!

Mas este ano promete...
Estou preparando a minha primeira viagem internacional,
na iminência de começar em um emprego novo,
pelo reconhecimento do meu profissionalismo.
Ano que concluo mais uma graduação e tb o Mestrado!!!

Enfim... 2007 acabou!!! Ufa!!!!!
Com a expectativa de um 2008,
no mínimo, inovador...

Voltei!!!!







quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

"Jamais haverá ano novo, se continuar a copiar os erros dos anos velhos".

Luís de Camões


Frase tão antiga...
A humanidade é tão previsível,
que, mesmo após quinhentos anos, ainda
consegue repetir os erros do passado...

Confesso! Não sei se este ano foi bom ou ruim...
Só sei que foi um ano inusitado...
Quantas informações novas,
Quantas pessoas eu conheci, ou melhor,
"concebi", porque passei a senti-las de verdade.
Quantas pessoas eu perdi! Não... se dissiparam
da minha vida, pois em verdade nunca as conheci.
Quantos ganhos e perdas...
Quantas perdas com ganhos...
Fazendo o balanço de final de ano,
de certa forma, o saldo foi positivo.

S.B.

RECEITA DE ANO NOVO



Para você ganhar belíssimo Ano Novo

cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,

Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido

(mal vivido talvez ou sem sentido)

para você ganhar um ano não apenas pintado de novo,

remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;

novo até no coração das coisas menos percebidas

(a começar elo seu interior) novo, espontâneo,

que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come,

se passeia, se ama, se compreende, se trabalha,

você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,

não precisa expedir nem receber mensagens

(planta recebe mensagens? passa telegramas?)

Não precisa fazer lista de boas intenções

para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumadas

nem parvamente acreditar que por decreto de esperança

a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade,

recompensa, justiça entre os homens e as nações,

liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,

direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome,

você, meu caro, tem de merecê-lo,

tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,

mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo cochila

e espera desde sempre.



Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

"Sê"

Se não puderes ser um pinheiro,no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser uma ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.
Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.

Pablo Neruda

Seja o melhor que puder,
Que o melhor receberá!
Pois não há mal algum que
modifique nossa essência!"

Oi "Hanson"... adorei suas palavras,
mas vc não deixou e-mail, nem o endereço
do seu blog para contato...

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Não Nos Contaram

Hoje é o momento ideal pra falar de sacanagem.
Mas nada de ménage à trois, sexo selvagem e práticas perversas, sinto muito.
Pretendo, sim, é falar das sacanagens que fizeram com a gente.

Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos.
Não nos contaram que amor não é acionado nem chega com hora marcada.

Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade.
Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo.
Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável.

Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada "dois em um", duas pessoas pensando igual, agindo igual, que isso era que funcionava.
Não nos contaram que isso tem nome: anulação.
Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável.

Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos.

Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto.
Só não disseram que existe muito mais cabeça torta do que pé torto.

Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade.
Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas.

Ah, nem contaram que ninguém vai contar.
Cada um vai ter que descobrir sozinho.
E aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz se apaixonar por alguém.

Martha Medeiros

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

ESCONDIDINHO

Cresci e já não acredito mais em sonhos.

Como pude esquecer meus sonhos de criança, onde a imaginação era soberana?

Passou-se o tempo, a imaginação e a inquietude da juventude perderam-se ao longo da rotina da vida.

Mas não! Os sonhos ainda estavam ali, bem escondidinhos no meu coração, vivendo dentro de mim.

Sempre acreditei que seria possível e esta crença me permitiu sonhar, desejar e realizar.

Talvez a realização do meu sonho tenha demorado um pouco, mas a vida e a maturidade me ensinaram a ter paciência e perseverança.

Então, diante desta conquista tão sonhada, só posso neste momento sorrir e pular de alegria, tal como aquela criança do passado, com a certeza de que sou FELIZ!

Sbonini.


Este pequeno trecho eu escrevi para a mãe de uma amiga...
Que realizou o grande sonho de se formar enfermeira, já na idade "madura"...
Penso que nunca devemos deixar de sonhar...
Não há época certa ou o momento exato!!!!
A única certeza... são os sonhos...
Estes são certos e nos impulsionam!!!
Que lindo exemplo...

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

ALÉM DA TERRA, ALÉM DO CÉU


Além da Terra, além do Céu,

no trampolim do sem-fim das estrelas,

no rastro dos astros,

na magnólia das nebulosas.

Além, muito além do sistema solar,

até onde alcançam o pensamento e o coração,

vamos!

vamos conjugar

o verbo fundamental essencial,

o verbo transcendente, acima das gramática

se do medo e da moeda e da política,

o verbo sempreamar,

o verbo pluriamar,

razão de ser e de viver.


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE



domingo, 16 de dezembro de 2007

Afinidade

A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil,
delicado e penetrante dos sentimentos. O mais independente.
Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos,
as distâncias, as impossibilidades.
Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação,
o diálogo, a conversa, o afeto, no exato ponto em que foi interrompido.
Afinidade é não haver tempo mediando a vida.
É uma vitória do adivinhado sobre o real.
Do subjetivo sobre o objetivo.
Do permanente sobre o passageiro.
Do básico sobre o superficial.
Ter afinidade é muito raro.
Mas quando existe não precisa de códigos verbais para se manifestar.
Existia antes do conhecimento, irradia durante e permanece depois
que as pessoas deixaram de estar juntas.
O que você tem dificuldade de expressar a um não afim, sai simples
e claro diante de alguém com quem você tem afinidade.
Afinidade é ficar longe pensando parecido a respeito dos mesmos
fatos que impressionam, comovem ou mobilizam.
É ficar conversando sem trocar palavra.
É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento.
Afinidade é sentir com.
Nem sentir contra, nem sentir para, nem sentir por, nem sentir pelo.
Quanta gente ama loucamente, mas sente contra o ser amado.
Quantos amam e sentem para o ser amado, não para eles próprios.
Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo.
É olhar e perceber.
É mais calar do que falar.
Ou quando é falar, jamais explicar, apenas afirmar.
Afinidade é jamais sentir por.
Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo.
Mas quem sente com, avalia sem se contaminar.
Compreende sem ocupar o lugar do outro.
Aceita para poder questionar.
Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar.
Só entra em relação rica e saudável com o outro,
quem aceita para poder questionar.
Não sei se sou claro: quem aceita para poder questionar,
não nega ao outro a possibilidade de ser o que é, como é, da maneira que é.
E, aceitando-o, aí sim, pode questionar, até duramente, se for o caso.
Isso é afinidade.
Mas o habitual é vermos alguém questionar porque não aceita
o outro como ele é.
Por isso, aliás, questiona.
Questionamento de afins, eis a (in)fluência.
Questionamento de não afins, eis a guerra.
A afinidade não precisa do amor.
Pode existir com ou sem ele.
Independente dele. A quilômetros de distância.
Na maneira de falar, de escrever, de andar, de respirar.
Há afinidade por pessoas a quem apenas vemos passar,
por vizinhos com quem nunca falamos e de quem nada sabemos.
Há afinidade com pessoas de outros continentes
a quem nunca vemos,veremos ou falaremos.
Quem pode afirmar que, durante o sono, fluidos nossos não saem
para buscar sintomas com pessoas distantes,
com amigos a quem não vemos, com amores latentes,
com irmãos do não vivido?
A afinidade é singular, discreta e independente,
porque não precisa do tempo para existir.
Vinte anos sem ver aquela pessoa com quem se estabeleceu
o vínculo da afinidade!
No dia em que a vir de novo, você vai prosseguir a relação
exatamente do ponto em que parou.
Afinidade é a adivinhação de essências não conhecidas
nem pelas pessoas que as tem.
Por prescindir do tempo e ser a ele superior,
a afinidade vence a morte, porque cada um de nós traz afinidades
ancestrais com a experiência da espécie no inconsciente.
Ela se prolonga nas células dos que nascem de nós,
para encontrar sintonias futuras nas quais estaremos presentes.
Sensível é a afinidade.
É exigente, apenas de que as pessoas evoluam parecido.
Que a erosão, amadurecimento ou aperfeiçoamento sejam do mesmo grau,
porque o que define a afinidade é a sua existência também depois.
Aquele ou aquela de quem você foi tão amigo ou amado, e anos depois
encontra com saudade ou alegria, mas percebe que não vai conseguir
restituir o clima afetivo de antes,
é alguém com quem a afinidade foi temporária.
E afinidade real não é temporária. É supratemporal.
Nada mais doloroso que contemplar afinidade morta,
ou a ilusão de que as vivências daquela época eram afinidade.
A pessoa mudou, transformou-se por outros meios.
A vida passou por ela e fez tempestades, chuvas,
plantios de resultado diverso.
Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças,
é conversar no silêncio, tanto das possibilidades exercidas,
quantos das impossibilidades vividas.
Afinidade é retomar a relação do ponto em que parou,
sem lamentar o tempo da separação.
Porque tempo e separação nunca existiram.
Foram apenas a oportunidade dada (tirada) pela vida,
para que a maturação comum pudesse se dar.
E para que cada pessoa pudesse e possa ser, cada vez mais,
a expressão do outro sob a forma ampliada e
refletida do eu individual aprimorado.


Arthur da Távola

sábado, 15 de dezembro de 2007




TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


Ferreira Gullar

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

ENTRE AMIGOS (12 de abril de 1999)

Para que serve um amigo?

Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, recomendar um disco, dar carona pra festa, passar cola, caminhar no shopping, segurar a barra.

Todas as alternativas estão corretas, porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito.

Milan Kundera, escritor tcheco, escreveu em seu último livro, "A Identidade", que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar.

Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos. Verdade verdadeira.

Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo contruído.

São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão. Veremos.

Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos.

Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta.

Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país.

Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu.

Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o reveillon.

Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado.

Um amigo não segura a barra, apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.

Duas dúzias de amigos assim ninguém tem. Se tiver um, amém.


Martha Medeiros

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Eu hoje joguei tanta coisa fora...."

Vou pedir permissão ao autor e repetir a notória frase:
"Eu hoje joguei tanta coisa fora"
Esvaziei minha caixa de e-mail, minha agenda de telefones,
meu coração de "pessoas", que me deixarão saudades...
Deveria ser fácil, como na poesia, mas não é!!!
É doloroso, pois uma caixa limpa,
nada mais é do que uma caixa vazia...
É assim que me sinto!
Não! É assim que não me sinto!!!!